Feriado de Primeiro de Maio. Há uma semana que estou sozinho em casa, tirando a importante presença da minha mais nova companheira de horas de solidão, a pequena Anabela. Enquanto espero a terça-feira chegar, e com ela todas as responsabilidades que um dia "útil" me traz, fico pensando que não tenho motivos pra comemorar o feriado de hoje. Qual o valor de ser um trabalhador? Vender-se à preço de banana, dar o direito à outrem de explorar sua força de trabalho, perder seis, oito, dez horas do dia dedicando-se a enriquecer os outros, enquanto sua situação não melhora? Não, muito obrigado, não aceito parabéns por esse dia. O trabalho não dignifica o homem, pelo contrário, o trabalho humilha o homem, rebaixa o homem, aliena o homem, domina e tira a dignidade do homem, enriquece quem sempre esteve por cima. O trabalho salienta a divisão da sociedade, resgina a pessoa, tira-lhe o direito de coletivizar de qualquer sociedade, pois impõe seus valores rígidos, frios, segregadores, valores mercadológicos, meritocráticos, individualistas. Eu me envergonho de ter que trabalhar, envergonho-me de fazer o que várias gerações fazem há séculos, e que Comte definiu tão bem: resigno-me dignamente. Eu me envergonho desse dia.
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Num sentido a academia está me fazendo mal: está criando um fosso entre as pessoas que circulam nos mesmos meios que eu (de lá) e as pessoas que são anteriores à ela, de tempos já imemoriáveis, e que não circulam nos mesmos meios que eu, mas que fazem parte de mim de uma certa forma. Eu reconheço esse fosso, não abomino nem estranho sua existência, mas nada que uma ponte não possa resolver. Só que parece que até as pontes estão em ruínas, e eu me vejo mais afastado do meu passado como nunca antes, e mesmo que eu queira me afastar de muitas coisas (e pessoas) que fizeram parte dele, nem todos estão nessa lista. Eu sinto que eu mudei, e essa mudança já era esperada há tempos, só que essa mudança não pode me afastar de quem eu amo. Eu almejava essa mudança há muito tempo mesmo, eu sofri demasiadas vezes pensando em como fazê-la, porque demorava, se teria condições de fazê-la, se aceitaria sua presença, e ela foi se construindo aos poucos, reunindo vários elementos, até que finalmente se concretizou, mas seus efeitos até agora estão aquém do que eu esperava. É uma mudança de longo prazo, eu sei, mas eu não contava com esse afastamento brutal de certos elementos da minha vida. Essas pessoas não compreendem que são minha fortaleza, a base sólida apartir da qual reconstrui todo o meu ser, desfazendo-me de velhas máscaras, dando minha cara à tapa. Eu preciso ter um lugar pra me esconder quando o mundo se mostra adverso à mim, e mesmo que as conchas novas se mostrem confortáveis, mesmo assim eu gosto de contar com as velhas e boas conchinhas do passado.
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Eu me sinto desprotegido. Eu estou acuado, ressabiado, desconfiado. Eu me vejo em Anabela: estou recém descobrindo um mundo novo, abrindo meus olhos, contruindo aos poucos a minha visão, e por isso preciso de alguém que esteja comigo, pra que eu não sinta medo, pra que eu não chore mais.
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Um comentário:
esse negócio do abismo entre teu passado e teu presente academico é mto real. eu não tinha pensado nisso, putz q coisa.
eu não trabalho pq tenho a ilusão de que sou um playboy de camisa polo Lacoste, numa vespa, na beira do Mediterrâneo.
as vezes eu me acordo e me vejo ali, com camisetas da renner, com uma bicicleta, na beira de Ipanema.
ando com a ilusão de que vou ser um "self made man", um exemplo capitalista. pufff.
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