Mais de cinco mil pessoas enchiam de vozes e gritos aquela praça, numa quente manhã de verão. Algumas estavam encapuzadas, e traziam pedaços de paus e pedras na mão. Gritavam palavras de ordem às pessoas que por ali cruzavam, interpelando algumas para entregar folhetos e explicar o motivo do protesto. Um dos encapuzados pôs fogo num pneu, e aos poucos foi montada uma barricada no meio da praça. Ao longe, começava-se a ouvir sirenes.
A multidão ficou mais agitada. Algumas pessoas começaram a correr, temendo o pior. Os mais exaltados se armavam com mais paus e pedras, preparando-se para o conflito iminente. O barulho das sirenes ficava mais alto, e os megafones produziam sons incompreensíveis, de discursos fortes de alguns manifestantes.
Num instante as ruas ao redor daquela praça ficaram tomadas de viaturas da polícia. Logo atrás das viaturas, pequenos caminhões com a insígnia da corporação traziam os soldados da tropa de choque. Como que num segundo, centenas de homens com enormes escudos e cassetetes enfileiraram-se, formando um quadrado, no aguardo das instruções do comando. A multidão gritava e atirava pedras pra cima da tropa de choque. Um outro grupo de encapuzados pôs fogo num dos carros que estavam estacionados num dos lados da praça. A fumaça preta da queima da borracha encobria a velha praça, dando um ar funesto àquele local tão agradável numa manhã de janeiro.
A ordem de avanço havia sido dada. As batidas dos cassetetes nos escudos dos policiais avisavam que eles estavam prontos para o conflito. De longe, alguém acendeu um coquetel molotov e atirou pra cima dos policiais, ferindo alguns deles. Era o estopim que faltava para o início do confronto direto.
O batalhão de choque começou a avançar pra cima dos manifestantes, atirando-lhes bombas de gás lacrimogêneo. A velha praça, com um nome pomposo de um antigo general do exército, tomada de monumentos, que servia de local para passeios agradáveis aos domingos de tarde, transformara-se, naquela manhã, num campo de batalha urbana. Ouviam-se gritos, explosões, tiros de bala de borracha, mas pouco se via. A fumaça encobria os rostos, as expressões, as ideologias, as utopias, a repressão.
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Álvaro recebeu estupefato a notícia que acabara de ler numa carta deixada na sua caixa de correspondências. Tinha um mês pra entregar o apartamento que alugava, pois o proprietário cansara-se da sua constante inadimplência e trocaria de inquilino. Já eram quase dez horas da noite, o rapaz recém tinha chegado do trabalho. Tivera um dia exaustivo no hotel onde trabalhava como garçom.
Abriu a porta de casa, acendeu a luz, e contemplou o pequeno apartamento onde morava desde que viera do interior, há quase um ano. Era um lugar compatível para um homem solteiro, que não precisava de muito espaço. Mas não era nem um pouco confortável e agradável viver ali, pois era muito quente e úmido. Entretanto, Álvaro não reclamava, pois o preço era acessível, mesmo que ultimamente estivesse completamente fora da realidade do seu orçamento, comprometido com as mensalidades da faculdade.
Largou sua pesada mochila na pequena poltrona da sala e foi até a cozinha procurar alguma coisa para comer. Sentou-se na mesa ao lado da janela, e ficou contemplando o pedaço de céu que era possível ver entre seu prédio e o vizinho. Beliscou o sanduíche que havia preparado, e tomou um gole de café. Apanhou um pesado livro da mochila, algumas folhas de caderno em branco, e começou a realizar problemas. Tinha prova no outro dia pela manhã, e seus estudos estavam atrasados.
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