segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Trauma dominical

Adquiri uma implicância com o domingo. E isto é fato. Tiro o domingo pra ficar depressivo, pensativo, absorto em idéias desconexas e paranóicas. Isso porque o domingo adquiriu um caráter traumatizante pra mim: é o dia que meu pai liga dos EUA pra aumentar o número de cobranças; é o dia do famigerado “almoço em família”, onde se encontram aquelas pessoas que tu fazes questão de esquecer que existem durante a semana, e onde se discutem os mesmíssimos assuntos e onde são feitas as mesmíssimas cobranças; é o dia em que todos estão em casa e o condomínio vira um pandemônio; e é o dia de Faustão e Gugu na TV. Acho que citei bons motivos pra explicar meu trauma pelos domingos. O de hoje foi excepcional: aniversário de um ano do Gabriel, filho do meu primo Edson. Esse menino venceu uma batalha contra uma doença, não tinha nem seis meses, e por isso mereceu uma comemoração muito grande. A festa foi regada a salgadinhos, bolo e cerveja. Mas apareceram as mesmas pessoas que se tenta evitar durante toda a semana, e vieram à tona os mesmos assuntos de sempre.
Mas o assunto de hoje não é o trauma dominical. Estes últimos meses foram recheados de acontecimentos em quase todos os aspectos da minha vida. Acho que alguns eu dei conta, outros não, e outros nem apareceram – ainda procuro um emprego! Mas um sentimento o qual ainda não consegui me desfazer é a solidão. Eu sei, filho único deveria ser acostumado a essas coisas, mas eu não consigo. Naqueles momentos mais depressivos, tipo um domingo à tarde qualquer, sinto-me só, distante das pessoas que eu gosto, que naquele momento devem estar fazendo outras coisas, pensando em qualquer besteira. Tentei preencher esse espaço hoje com as aventuras do Harry Potter e o Enigma do Príncipe, mas não consegui: bruxos não existem, e eu quero contato humano, carnal. Eu me sinto uma contradição em pessoa: podendo ter tal contato, não o quero ter. Depois, fico sentindo falta, reclamando de um domingo solitário. Mas existem tantas coisas entre o que eu quero e o que está ao meu alcance, que seriam inenarráveis aqui. Além disso, existem tantas outras contradições em mim, que também seriam inenarráveis, que eu fico imaginando o quê uma pessoa mais sensata e equilibrada pensaria de mim: um louco, que não sabe o que quer, indeciso, sensível demais. Sim, digo que sou tudo isso, e muito mais. Não existe quase nenhuma coisa certa em minha vida – além da morte, é claro – e se existe, faço questão de derrubá-la. Não vejo graça nenhuma em saber o amanhã e não vejo graça nenhuma em ser uma pessoa decidida e certa do que quer: sendo assim, posso experimentar de tudo, provar de tudo, até descobrir o que me apraz. A certeza da hora é a seguinte: eu quero amar. É simples, não? Para muitos, é tão simples quanto ir à esquina e comprar um pãozinho. Para mim não é, pois cheguei a uma conclusão (depois de uma auto-análise no Messenger) que o amor que sinto mora nas pequenas coisas que eu absorvo das pessoas, e que esse amor demora a ser construído. Vale isso tanto para as amizades, quanto para os amores, aqueles que são eternos enquanto duram. Por se construir vagarosamente, e em cima das pequenas coisas, me apaixono constantemente por pessoas próximas de mim, e isso muitas vezes me traz inconvenientes, e sofrimentos a mais. É por isso que há o constante vazio, esse vazio que me faz deprimir nos domingos: preciso aprender a distinguir a linha tênue entre o amor e a amizade e, conseqüentemente, preencher meus espaços vazios.

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