sexta-feira, 28 de março de 2008

Um prólogo

Um furgão cinza saiu do prédio oponente localizado próximo ao porto aproximadamente às vinte e três horas da noite do dia 10 de agosto de 1977. Logo atrás, outro carro azul-escuro menor que carregava quatro homens deixou o edifício cuja entrada principal se abre num grande túnel escuro e sombrio. Os dois automóveis cruzavam as tranqüilas ruas da cidade, àquela hora vazias, acompanhados apenas por uma névoa que pairava no ar, enregelando ainda mais a noite fria e nublada. Do mar vinha um vento gelado que cortava a cidade, e o cheiro de maresia espalhava-se por tudo. Quase nenhum automóvel circulava pelas ruas, e frondosos plátanos que as ladeavam davam um aspecto ainda mais sombrio àquela noite.

Afastaram-se do centro em direção ao leste. Assim que iam avançando no caminho, os prédios iam dando lugar a pequenas moradias. Logo cruzaram a divisa e adentraram no departamento de Canelones, deixando a fria e escura Montevidéu para trás.


A 90 quilômetros dali, uma criança chorava no colo de uma jovem angustiada. O assobio do vento batendo nas frestas da casa a deixava ainda mais nervosa. Pela janela, observava a rua deserta e a sombra que um imponente morro produzia na noite escura, enquanto sacudia a criança no colo tentando acalmá-la. Sentia uma forte contração no estômago, mas sabia que não era fome, apesar de não comer direito há mais de uma semana. Era medo, que a fazia tremer dos pés a cabeça, mesmo que estivesse bem protegida do vento e do frio.

No interior da modesta casa havia apenas uma fonte de luz vinda de uma vela fixada num pequeno pires em cima da mesa. Das janelas pendiam cortinas escuras, impedindo que outra fonte de claridade iluminasse a casa. Dois sofás de dois lugares e uma estante velha completavam a mobília da sala, deixando um pequeno espaço de circulação para o único quarto existente na casa. A abertura que dava para o pequeno quarto era coberta por uma cortina antiga, de uma estampa já desbotada. Dentro do quarto, uma cama de casal ocupava a maior parte do espaço disponível, deixando um mínimo espaço que dava acesso ao guarda-roupa antigo e sem portas que ficava no espaço maior entre o pé da cama e a parede. A cabeceira da cama ficava voltada para a janela que dava para a rua, de onde também pendia uma cortina escura. Pendurado na parede, de onde podia ser visto logo que se entrasse no pequeno quarto, um grande rosário de madeira. Ao lado da cabeceira da cama, um pequeno criado-mudo, onde repousava uma mamadeira vazia e balas de revólver. E na cama, roupas espalhadas e um revólver calibre 38.

E foi esse revólver que a jovem apanhou imediatamente após ouvir um barulho metálico vindo do pequeno pátio da frente da casa. Pequenos espasmos de tremor percorriam-lhe o corpo enquanto ela apontava a arma em direção à porta com uma das mãos, enquanto segurava a criança com a outra. Ouviu três batidas rápidas e duas espaçadas; era o sinal de que estava tudo bem. Abriu a porta e junto com a golfada de vento frio que imediatamente invadiu a casa, pôde ver um jovem de aproximadamente 21 anos entrando com uma bicicleta um tanto enferrujada, que produzia o barulho metálico ouvido antes pela garota. No pequeno cesto localizado na frente da bicicleta, uma garrafa de vidro com leite e um pacote embrulhado num papel pardo e amarrado com barbantes.

- Felipa me deu essa garrafa de leite e um pedaço de pão e manteiga. Esquenta um pouco do leite para a pequena. – E olhou para o revólver da garota. – Pretendia atirar num gorila como, se isto está descarregado?

- Tu sabes que odeio manejar essas coisas. Agora segura ela que vou esquentar o leite.

O rapaz repousou a bicicleta próxima à porta de entrada e pegou a pequena no colo, que ainda choramingava. A garota largou o revólver descarregado em cima da mesa, apanhou a garrafa de leite e o pequeno embrulho, e foi para a cozinha. A única divisão entre a sala e a cozinha era uma pequena bancada, que limitava os espaços. Uma pia comprida logo abaixo de uma janela que dava para os fundos da casa, um armário sob a pia, uma geladeira marrom de um lado e um pequeno fogão de outro completavam o minúsculo ambiente. A iluminação da cozinha era parca, feita apenas pela vela que estava na mesa da sala, e deixava tudo mergulhado na penumbra. A garota pôs um pouco do leite numa caneca de alumínio, riscou um fósforo e acendeu uma das duas bocas do fogão. Enquanto isso o rapaz cantava uma canção de ninar para a pequena, embalando-a em seu colo, enquanto carregava o revólver calibre 38 com as balas que estavam no criado-mudo.


O furgão cinza e o outro automóvel agora entravam no departamento de Maldonado. A estrada estava vazia. De um lado e de outro se estendiam descampados a perder de vista. No horizonte, erguiam-se as sombras escuras da Sierra de Ánimas.


No chalé o choro havia cessado. A criança, uma menina saudável de dois meses, bebeu o leite morno preparado pela mãe e acabou dormindo. Depois de repousar o pequeno corpo da menina enrolado numa manta rosa em cima da cama, a garota sentou-se na mesa junto do rapaz para comer o pão e a manteiga que ele trouxera junto com o leite.

- Tenho que te contar uma coisa Mariana.

- Fala, nene. – Respondeu a garota enquanto passava avidamente a manteiga no pão.

- Felipa entrou em contato com a mãe de Lucía e disse que a levaram semana passada de dentro de casa.

O rosto expressivo de Mariana, que outrora chamara a atenção de Gustavo pela jovialidade e otimismo, e que nos últimos tempos havia ganhado contornos sombrios, contorceu-se de terror.

- Não pode ser! Lucía nada tinha que ver! Recém entrara no grupo... mal conhecia o funcionamento. Deus! Havia participado de apenas uma reunião!

- Por isso venho te dizendo carinho, havia um espião entre nós. Todos estão desaparecendo. Não estamos mais seguros aqui.

- Não estaremos seguros em parte nenhuma.

- Podemos ir para Minas, tenho um conhecido lá que poderia nos dar abrigo. Não se negaria. Depois, daríamos um jeito de fugir para o Brasil...

Mariana não respondeu de imediato a Gustavo. Não sabia o que pensar. Estava cansada das fugas, dos esconderijos, do medo. Pensava na pequena. Não poderia continuar se escondendo com uma criança de dois meses no colo. Ela precisava de cuidados especiais.

- Nene, vamos deixar Sara com sua prima Felipa. Ela pode levá-la até minha mãe. Não podemos continuar vivendo assim. – E quando disse isso, começou a chorar.

Gustavo sabia o quanto era difícil para Mariana deixar a filha para trás. Quando começaram a namorar, tudo parecia fácil. Agora, viviam sob o medo e o terror.


Outros dois automóveis de cor preta sem identificação alguma saíram da sede da Prefeitura Naval de Punta del Este naquele momento. Cruzaram a península e tomaram o caminho em direção a oeste, passando pelas suntuosas residências da Playa Mansa. O vento encrespava as águas do Rio da Prata e produzia sensação de mais frio. Apesar das condições climáticas, o balneário de Punta del Este jamais perdia seu encanto.

Em alta velocidade os dois automóveis cruzaram Punta Ballena e adentraram o balneário de Portozuelo. Em trinta minutos chegaram à rótula que leva à cidade de Piriápolis e Pan de Azúcar. Ali, aguardavam-nos o furgão cinza e o automóvel azul-escuro que vinham de Montevidéu. Um homem desceu do automóvel que vinha da capital e foi conversar com um dos recém chegados. Depois partiram todos em direção à cidade de Piriápolis. No horizonte se destacava a imponente sombra do Cerro da Cruz, e a escuridão impedia que se avistasse a grande cruz existente no topo do morro.


Aproximadamente às duas da manhã do dia 11 de agosto de 1977 dois automóveis pretos, um azul-escuro e um furgão cinza chegaram à pequena rua de chão batido, afastada do centro da cidade de Piriápolis, próxima ao Cerro da Cruz. Nessa pequena rua existia apenas uma oficina mecânica próxima à avenida principal e um modesto chalé no final da rua. Os automóveis estacionaram em frente ao pequeno chalé. Em torno de quinze homens armados cercaram a pequena residência e a rua, chamando a atenção apenas de cães que latiam do pátio da oficina mecânica.

Dois foram à frente e bateram violentamente na porta do chalé.

- Abram! Forças Conjuntas!

Com o barulho, Gustavo Carrasco e Mariana Gutierrez saltaram abruptamente da cama. Mariana agarrou a filha no colo que com o susto começara a chorar, e Gustavo apanhou o revólver calibre 38 que repousava no criado mudo, devidamente carregado.

- Fica aqui Mariana! Fica aqui!

Gustavo precipitou-se para fora do quarto, mas Mariana agarrou-lhe pela camiseta, desesperada. Seu coração pulsava fortemente.

- Não me deixa aqui Gustavo!

O rapaz olhou para o rosto da namorada. Amava-lhe tanto, que seria capaz de fazer qualquer coisa para impedir que tocassem nela e em sua filha. Seu rosto apavorado deu-lhe mais coragem. Sua imagem segurando a filha no colo deu-lhe a certeza de que jamais deixaria que se aproximassem delas. Lágrimas correram pelo seu rosto. Mais batidas violentas na porta.

- Abram essa porta seus filhos da puta. Sabemos que estão aí. Abram ou vamos foder com a vida de vocês!

Gustavo aproximou-se da namorada e deu-lhe um beijo. Depois, beijou a testa da filha em seu colo.

- Mariana, eu te amo. Sempre vou te amar. Tu e Sara. Sempre.

- Gustavo...

O rapaz precipitou-se para fora do quarto, atravessou a pequena sala e abriu a porta com a arma em punho. Os dois agentes da repressão uruguaia, ao verem a figura de Gustavo armado à sua frente, começaram a atirar contra o corpo do rapaz. Atingido com tiros no peito e na cabeça, Gustavo Carrasco caiu, e seu sangue começou a tingir o chão de vermelho. Mariana assistia à cena aos prantos, segurando firmemente sua filha no colo, que com os disparos chorava ainda mais alto.

Os homens apanharam o revólver de Gustavo e foram em direção a Mariana. A garota recuou e apertou ainda mais forte a pequena contra o peito.

- Dá a pequena aqui. – Disse um dos homens. – Dá-lhe, anda, ou te parto a cara sua vagabunda.

A garota segurava sua filha e estava decidida a não largá-la. Seu corpo, que tremia dos pés a cabeça de pavor até então, parecia agora firme, inflexível. Jamais entregaria sua filha para aqueles homens enquanto estivesse viva.

- Vais complicar é? – Disse o mesmo homem, que avançou em direção a Mariana.

Os olhos da garota fitavam o homem que vinha em sua direção. Alto, de fartos cabelos morenos na cabeça, grossas sobrancelhas e um fino bigode e vestido com um sobretudo preto, um grosso colete de lã e uma camisa branca por baixo cujos primeiros botões estavam desabotoados, olhava para ela com cara de desprezo, estendendo os braços em direção à pequena.

- Vamos cuidar da pequena. Vamos, anda, me dá ela!

O homem irritava-se com a negativa de Mariana de soltar a filha. A cada passo que dava em sua direção, tinha mais certeza de que jamais soltaria a criança. Que a matassem antes, assim como fizeram com Gustavo.

Numa fração de segundos, o homem ergueu o braço e deu um forte golpe na cabeça de Mariana, que a fez cambalear e desabar no chão. O segundo homem segurou a garota firmemente no chão enquanto o primeiro arrancou Sara de seus braços. Mariana, aos berros, tentava impedir que levassem sua filha, mas o homem que a segurava começou a desferir-lhe golpes no rosto. Antes que lhe pusessem um capuz preto na cabeça, ainda pôde olhar a filha no colo do oficial da Marinha uruguaia. Seria a última vez que veria a menina Sara Carrasco Gutierrez em sua vida.

Um comentário:

Anna Fernandes disse...

És um literato =D
(eu adoro esse seu nome para 'comentários')