domingo, 25 de março de 2007

O Jantar

Na ordem social de hoje, o mais elevado tipo de sociedade
humana está nas salas de estar. Nas elegantes e refinadas reuniões das
classes aristocráticas não há nenhuma das impertinentes interferências da
legislação. A individualidade de cada um é totalmente admitida. O
intercurso, portanto, é perfeitamente livre. A conversação é contínua,
brilhante e variada. Grupos são formados por atração. E são continuamente
rompidos e reformados através da ação da mesma energia sutil e
onipresente. A deferência mútua permeia todas as classes, e a mais perfeita
harmonia jamais alcançada, nas complexas relações humanas, prevalece
precisamente sob aquelas circunstâncias que os legisladores e homens de
Estado temem como condições de inevitável anarquia e confusão. Se
existem quaisquer leis de etiqueta, elas são meras sugestões de princípios,
admitidos e julgados por cada pessoa, pela mente de cada indivíduo.
Seria concebível que em todo o futuro progresso da humanidade,
com todos os inúmeros elementos de desenvolvimento que a época presente
vem desdobrando, a sociedade em geral, e em todas as suas relações, não
atingirá um grau de perfeição tão alto como certos segmentos da sociedade,
em certas relações especiais, já atingiu?
Suponha que o intercurso da sala de estar seja regulado por uma
legislação específica. Que o tempo permitido para cada cavalheiro dirigir-se
a cada dama seja fixado por lei; que as posições que eles possam sentar ou
ficar de pé sejam precisamente reguladas; que os assuntos sobre os quais
eles tenham permissão de discorrer, e o tom de voz e os gestos que cada um
possa fazer, sejam cuidadosamente definidos, tudo sob o pretexto de evitar a
desordem e a violação dos privilégios e direitos uns dos outros. Poder-se-ia
conceber algo melhor calculado e mais certo de converter todo intercurso
social numa escravidão intolerável e numa confusão sem esperança?

S. Pearl Andrews
A Ciência da Sociedade

fonte: TAZ - Hakim Bey

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