domingo, 9 de outubro de 2005

Na chuva

Como é bom caminhar na chuva, nem que seja debaixo de um guarda-chuva.
Ontem, depois da prova de Idade Média Oriental, resolvi tomar uma cerveja num boteco da Lima e Silva. Caía uma chuva fina, que logo mais engrossou. Pensamentos voando, indo de um extremo ao outro. Caminhava pela rua sem olhar para as pessoas, só olhando em direção ao nada, como se imitasse o rumo que minha vida anda tomando. Olhava, sem nenhum motivo, para os bares, um tanto vazios por causa da chuva. O burburinho me fazia sentir que ali haviam pessoas, mas todas distantes de mim. Quem sabe o burburinho queria me dizer que ainda continuava vivo, com todos os sentidos em ótimo funcionamento.
Passei na frente do edifício da Fernanda e vi luzes acesas na casa dela. Não me passou pela cabeça tocar no interfone, pra quê dividir todas as minhas mágoas e tristezas com alguém que poderia estar se sentindo muito bem naquele momento? Não ia estragar a noite de ninguém.
Continuei meu trajeto pela Lima e Silva, e quando cheguei no bar, vi muita gente por lá. Muito barulho, muita confusão. Hesitei em entrar, mas entrei, como se fingisse procurar alguém lá dentro que estivesse me esperando. Olhava para os cantos e não via ninguém, só ouvia vozes de desconhecidos, rindo, bebendo. Num canto ao fundo, encontrei uma mesa vazia, e como se quisesse fingir pra alguém que estivesse interessado, ou pra mim mesmo, sentei como se estivesse esperando alguém.
Veio uma guria, creio que eu com uns 16 ou 17 anos, e perguntou o que eu queria. Pedi-lhe uma Brahma, que ela não demorou em trazer. Despejei a cerveja no copo e fiquei observando o quanto é bonito o reflexo do líquido, com as bolhas subindo do fundo, até o colarinho.
Olhava quase toda hora no relógio. Se esperava por alguém? Não, ninguém sabia que eu estava ali. Tentava fingir pra mim mesmo, e para os outros também, que estava à espera de alguém. Mas a realidade, eu sabia bem, não era aquela. Aliás, sempre ajo dessa forma, em todos os aspectos da minha vida. Minha mente tentava pôr em ordem todos os sentimentos que se misturavam no meu coração, mas eu não conseguia entender muita coisa.
A cerveja gelada descia pela minha garganta, e eu olhava pra TV. Atrás da minha mesa, um grupo gritava divertidamente, mas eu não ouvia o que gritavam, apenas o alto burburinho de suas vozes. Desde que descera do ônibus estava com o fone do meu celular no ouvido sintonizado numa rádio, ouvindo músicas que me faziam divagar sobre todas as coisas que me afligiam. Aliás, o celular foi um grande companheiro de quase toda a noite chuvosa. Numa das mesas à frente, no meio do caminho em direção à rua, tinha um cara sozinho sentado, bebendo uma cerveja também. Passei a observá-lo, tentando adivinhar os motivos que haviam trazido ele até ali. Logo depois, sentou outro na mesa ao lado da dele, sozinho também, e a guria trouxe-lhe uma cerveja. Os dois bebiam, olhavam pro nada, e pensavam. Assim fazia eu, no meu canto escondido.
Estava absorvido na minha mente. Momentos passavam na minha cabeça, cenas que queria esquecer, ou queria lembrar, não sei ao certo. Meu espírito dependia da música que tocava na rádio. Quando era uma música alegre, pensava que tudo podia ser diferente, que chegara a hora de mudar, agir em proveito de uma vida nova, sair desse marasmo que me consumia. Quando a música era triste, vinha à minha mente sensações ruins, uma dor, uma sombra. Começava a sentir aquele efeito do álcool na minha cabeça, enquanto esvaziava a garrafa de cerveja. A solidão me consumia por dentro, mas a casca externa continuava intacta, invicta.
A cerveja daquela garrava já acabava, e eu pensava em pedir mais uma ou ir embora. A segunda opção me agradava menos, mas a chuva apertava lá fora, e a hora passava. Vozes conhecidas vinham de longe, e eu fui puxado à realidade. Juliana, Gustavo e mais dois amigos deles chegavam ao bar, e a Juliana se surpreendia em me ver ali.
Perguntou-me o que fazia por ali, mas eu não soube lhe responder. Viu a outra cadeira da mesa e pensou que estivesse esperando alguém. Não sabia ela que eu sempre estive à espera de alguém, mas que esse alguém ainda não tinha rosto, muito menos nome. Se tinha, já não valia mais a pena esperar.
Convidaram-me pra sentar com eles. Tirei o fone do ouvido, vim à tona do meu auto-mergulho e me sentei com eles. O Gustavo e um amigo dele discutiam alegremente, algo sobre o curso de Sociais, pude perceber certo momento. Um dos amigos dele, uma menina que não me lembro o nome, levantou-se e foi embora. Sentei na frente da Ju, e começamos a conversar sobre a prova. Dinastias bizantinas, nomes de imperadores, e imaginações hipotéticas que eu fazia de Constantinopla sendo atacada me passavam pela cabeça, e eu discutia com ela os processos religiosos que se deram durante a longa existência do Império Bizantino. Mas aquela sensação de falar, mas nunca falar a verdade, tomava-me por inteiro. A Ju é a única pessoa que sabia, ou pelo menos tinha alguma idéia, do que poderia estar me fazendo tão mal. Discutimos sobre isso, mas sem chegarmos a nenhuma conclusão.
Logo passamos a discutir, nós quatro, futilidades. Enquanto isso, não paravam de nos servir cervejas, e ouvíamos o barulho da chuva apertando mais ainda lá fora. Minha mente agora funcionava mais lenta, o efeito do álcool tornava-se maior. Penso que ela ficou preocupada em ver-me sozinho ali, bebendo e absorto em pensamentos. Mas também creio que os motivos que me levaram a fazer isso ela sabia quais eram, mesmo eu não tendo certeza alguma. Confessei-lhe mais algumas coisas, e somei mais coisas às nossas confidências, que tinha começado naquele mesmo bar, terça-feira passada. Naquela terça-feira, creio eu, ela passou a me compreender um pouco melhor.
Olhei o celular e haviam duas ligações não atendidas, todas de casa. Liguei e avisei minha mãe que iria demorar. Minha mãe definitivamente não fazia parte da minha realidade naquele instante, muito menos estava presente nos pensamentos e nas visões. Aliás, há muito que não está mais. Levante-me umas quatro vezes pra ir ao banheiro, efeito do álcool. A hora avançara, e os quatro chegaram à conclusão de que era melhor ir embora. Pagamos a conta e saímos, enquanto uma chuva grossa caía na rua. O amigo do Gustavo e da Ju achou um guarda-chuva daqueles grandes abandonado no chão, e eles foram pro carro do Gustavo sem tomar muita chuva. Ofereceram-me carona, que recusei; aleguei que pegaria uma lotação na Perimetral. E foi com essa intenção que fui em direção à Perimetral, enquanto a chuva caía torrencialmente, e meus pés encharcavam-se.
Resolvi caminhar até uma parada de ônibus, e desisti de pegar a lotação; o dinheiro que gastaria me faria falta, bem sabia eu. Áquela hora passavam os corujões, e eu esperaria um ali. Não tinha, também, a menor vontade de voltar pra casa. Pus o fone de ouvido companheiro de todas as horas no ouvido, sintonizei uma rádio no celular, e mergulhei pra dentro de mim mesmo novamente. Novamente aquela confusão de sentimentos, aquelas cenas, pequenos momentos, mas tão significantes pra mim. Ninguém entenderia o que sentia, muito menos eu.
Logo chegou na parada um casal, os dois bêbados. Chamaram-me a atenção por uns instantes, mas logo voltei aos pensamentos. O efeito do álcool distanciava-me do mundo real, e eu era conduzido a um mundo confuso. Olhava para o céu, que despejava grossos pingos de chuva, e para os carros que passavam, em alta velocidade. O casal estava aos beijos ao meu lado, mas eu não me importava. O meu mundo me puxava, querendo me afogar, e eu tinha a sensação de que aquela chuva me afogaria, até um local onde todos os pensamentos cessassem, e eu pudesse ficar em paz comigo mesmo.
Fui despertado com a visão de um ônibus ao longe, que reconheci ser o que eu esperava. Mas ele dobrou na José do Patrocínio, e eu corri em vão atrás dele. Voltei à parada, e o casal comentou alguma coisa, que respondi. Tomaram a decisão de pegar uma lotação, que não demorou a chegar. Logo, encontrei-me sozinho na parada novamente.
Ninguém nas calçadas, ninguém nas ruas. Com aquela chuva, até os ladrões desistiram de sair às ruas da Cidade Baixa. E a chuva não dava sinais de que iria parar. Encharcado, tendo perdido o ônibus, e querendo adiar minha chegada em casa, resolvi caminhar na chuva. Com o fone no ouvido, o único som externo era o som das gotas caindo no guarda-chuva. Assim, voltei à Lima e Silva, bem mais vazia do que quando havia chegado ali. Os bares estavam mais vazios, mas ainda podia ouvir o som de conversas e risadas, tão alheios a mim naquele momento. Naquele instante, enquanto caminhava sobre a chuva, percorrendo as calçadas da Avenida General Lima e Silva, me senti o ser mais só desse mundo. Tentava chorar, mas a tentativa era em vão. Distingüia pessoas no caminho, mas eram seres tão distantes, tão desfoques, que não faziam a menor diferença. Nem que passasse um trio elétrico ao meu lado eu conseguiria reverter aquela sensação, que havia me perseguido a noite inteira, e que se fazia mais presente naquele momento. Era eu, a chuva e a música nos meus ouvidos. Ninguém mais.
Segui caminhando pela avenida, e dobrei à esquerda na Vasco da Gama. Meu destino era a João Pessoa, onde poderia tomar meu rumo. Mas a minha vontade não era de voltar pra casa, que significava continuar naquele mundo só e vazio, repleto de sensações e sentimentos confusos. No entanto, minha razão dominou minha mente, e fui conduzido por ela até a avenida, onde poderia tomar uma lotação, ou um ônibus. Segui caminhando na João Pessoa, enquanto a chuva não parava de cair. A sensação de solidão caminhando comigo, sendo a única companheira naquela pequena jornada. Avistei o corujão vindo pelo corredor central dos ônibus. Sem pensar, atravessei a rua e entrei no ônibus, que estava cheio.
Eu sabia da presença daquelas pessoas ali, eu podia sentir. Mas isso não mudava em nada a condição a qual me encontrava. Eram todos desconhecidos, com caras de sonolência, conversando baixinho e olhando pra rua, pra chuva que caía incessantemente. Não havia lugar pra sentar, e eu fiquei na junção do ônibus, que era daqueles minhocões. Não conseguia enxergar direito a rua, pois as janelas estavam todas embaçadas. Distinguia somente algumas coisas, mas foi o suficiente pra saber a parada certa na qual desceria. A viagem não foi muito longa, e eu olhava o mundo ao meu redor, estranho e avesso à mim. As músicas soavam ao meu ouvido, mas eu já não prestava atenção nelas. Tinha vontade de desaparecer dali.
Desci logo após o Colégio Santa Luzia, atravessei a avenida Cavalhada, e segui em direção à João Salomoni. A chuva incessante, voltava a me acompanhar. Nesse momento já não conseguia me fixar em um só pensamento, e minha mente fazia com que nomes de imperadores bizantinos confundissem-se com frases soltas no meu cérebro. Encharcava-me cada vez mais, e atolava-me nos lamaçais da mal cuidada avenida da Vila Nova. Às vezes apressava o passo, no intuito de chegar mais cedo em casa, dormir e só acordar quando toda essa tormenta pessoal tivesse passado. Mas depois recuava, começava a andar devagar, imaginando que voltaria ao meu mundo eremita quando chegasse em casa, deitaria numa cama sozinho, e acordaria sozinho, e passaria o dia inteiro sozinho, pra dormir sozinho novamente.
Assim cheguei em casa. A chuva, como se estivesse decidida a me acompanhar naquela noite, diminuía. Cheguei todo molhado, e minha mãe viu que havia chegado, mas o efeito do remédio dela não fazia com que ela despertasse do sono. Agora dormiria mais tranqüila.
Entrei no chuveiro e tomei um banho quente, reconfortante. Continuava não fixando mais meu pensamento numa só coisa, e os malditos bizantinos continuavam atormentando minha mente. Estudara demais no dia anterior para aquela prova de Idade Média Oriental, e meu cérebro estava fatigado. Preparei uma torrada e um leite, e sentei na frente do computador. Não havia ninguém no MSN, e mesmo se houvesse, não queria falar. As pessoas me pareciam distantes, tão desfocadas quanto aquelas que avistara enquanto caminhava na rua. Naquele momento, eu não queria amigos, nem colegas, nem ninguém. Mas, contradizendo-me, queria ter a sensação de ser amado, de ser esperado por alguém. Isso me reconfortaria, me daria forças pra continuar vivendo. Será que era demais?
Demorei pra dormir, principalmente por causa das malditas passagens do livro sobre Bizâncio martelando na minha mente. A chuva voltava a cair, como se quisesse dizer que estava ali comigo, pra velar meu sono; como se quisesse me dizer que Deus estava ali, me protegendo, guiando meus passos durante essa pequena jornada desatinada. Adormeci. Se sonhei, não me lembro. Mas acho que já não posso mais viver bons momentos apenas em sonho. Quero acordar, viver, sorrir, ser feliz. Quero amar... e ser amado.
Acordei pela manhã e passei o dia na cama, sozinho. Adormecia, sonhava sonhos esparsos, e acordava novamente. Vi a noite chegar da minha janela, enquanto eu tentava imaginar coisas boas, como seria bom que o mundo e as pessoas não fossem alheias a mim, como seria bom que eu não fosse alheio às pessoas, como seria bom que eu fosse verdadeiro comigo mesmo, e como seria bom encontrar alguém pra dividir tudo isso.
Levantei, sacudi a poeira. Comi alguma coisa e resolvi assistir aos filmes que o Guilherme havia me emprestado, Olga e O Grito. Emocionei-me bastante com a luta daquela mulher que fez tudo por um sonho, um ideal. Quem sabe seja ela um exemplo a ser seguido por mim. Depois, diverti-me um pouco com O Grito, um dos piores filmes que já vi até hoje. Já era madrugada de domingo. Resolvi entrar na internet. Mais uma vez, ninguém no MSN. E mesmo que haja, não quero falar. Quero pensar que coisas boas ainda são possíveis de acontecer. Quero crer no amanhã. Comecei a escrever esse relato, que me trouxe vários pensamentos à mente. Estou, agora, terminando-o, e depois tomarei um banho quente, reconfortante. No intuito, como sempre, de pôr as idéias no lugar.
Até a próxima.

--> Texto dedicado à Olga Benário Prestes.

3 comentários:

Anônimo disse...

Se eu te disser que sei exatamente como tu te sentia, tu acredita?
Tenho certeza que não pelos mesmos motivos. Mas o sentimento, aposto que entendo perfeitamente.

Às vezes me pergunto: o que há na solidão que teima em fascinar algumas pessoas?

Fico pensando em ti agora, e no quanto tu procura as pessoas e no quanto tu é amigo e tá sempre disposto pras coisas. Em quanto tu busca o amor e quer se sentir inteiro e tal.

Mas pq diabo as pessoas são se permitem ser felizes. Pq na boa eu acredito que isso é muito uma escolha sabe. Sempre achei que só não é feliz quem não qh.

Acho que estão tds perdidos, àqueles que se negam em viver, àqueles que buscam a solidão, àqueles que pensam demais.

Acho que há atéum charme nisso, mas um tanto quanto cansativo!
Não acha?
Sei lá, o que eu to dizendo, mas é.
Adoro teus posts
e te adoro
bjooo

Chando, Lucas disse...

Cara, isso me lembra algumas das saídas mais doentias que eu tive. Óbviamente sozinho.

Ela falou bem ai em cima. Sacode a poeira mesmo, pula e vai a luta. Eu sei que é difícil, eu mesmo não consigo. E passar o dia sem fazer nada na cama é com certeza muito melhor que enfrentar as verdades do mundo e nossas obrigações. Mas fazer o que?
...

Mari Gil disse...

depois desses comentarios ai, fico sem tr muito o q dizer...
eh real, vai atras da tua felicidade pq tu merece! eu axo q tu tem q acreditar mais em ti, tu tem q te sentir bem contigo msm, e dai tu vai ver como as pessoas "surgem" pra ti... =)
eu sei o quao dificil eh... eu mesma nao acredito em mim...as vzs eu simplesmente qro desaparecer... msm tendo o gui do meu lado, eu me sinto sozinha as vzs...
sl..a felicidade n tah nos outros,tah em nos msmos...

mas se quiser uma companhia, to ai! bjoooooooes